MÍDIA, DISCURSO E LIBERALISMO


A revista Veja, encarnando o discurso do liberalismo, teve mais trabalho diante dos caos e da realidade incontestável. Destampou em sua capa uma imagem emblemática.


Nas últimas semanas o mundo econômico tremeu com a avalanche das empresas do mercado financeiras, a começar pelos bancos dos centros econômicos mundiais. O que já era esperado por analista, de fato, ocorreu deixando as bolsas de valores em polvorosa, e não somente isto, os tradicionais meios de comunicação de massa se viram numa situação delicada: como sustentar, apesar das evidências, discurso de um Estado mínimo e instrumento de um mercado livre regulador da sociedade? A tarefa realmente não se mostrou fácil. No final, as capas das revistas e as manchetes dos jornais não deixavam dúvidas, quantas dificuldades teriam para construir um discurso que reduzisse o pessimismo de uma sociedade que poderia despertar – ou já estava desperta - para o problema.

Todo sistema que se preze precisa de reajuste permanentemente, afinal a sociedade é dinâmica, e as mudanças são inevitáveis. Considerando uma condição extrema, a revolução de uma estrutura se faz necessária, afinal, a alternância de um modelo depende de sua eficiência, enquanto resultados na vida prática e sua capacidade de gerar informações que o sustente. Nestas últimas semanas as duas coisas não ocorreram: o símbolo máximo do liberalismo econômico ruiu, e as informações não conseguiam convencer as pessoas, que percebiam, nas imagens globais, o fracasso do governo dos Estados Unidos de conter a quebradeira e a queda acentuada das bolsas de valores.

O mais irônico disso tudo é que os países subdesenvolvidos – na verdade os países periféricos, a margem dos países centrais - não sofreram grandes perdas de capitais e conseguiam se sustentar, sem muitos desgastes. Ou seja, a avalanche não atingia os pobres, que depois de muito sofrer com os espirros do centro resolveram imunizar-se das doenças de um sistema centralizador e dominante. Em outras palavras, lentamente a periferia resolver buscar seus medicamentos e se revigorou contra os vírus que inexoravelmente deveria espalhar a curto ou longo prazo.

Nesta batida, os meios de comunicação de massa globalizados precisavam estampar em suas capas e no seu interior, símbolos (imagem) e texto (discurso) que dessem exemplos de força e capacidade de tomar medidas razoáveis para salvar o sistema.
A rigor, a crise não passou e a pergunta que não se cala é: o liberalismo econômico se mantém ou finalmente sucumbe aos eventos de uma economia sem controle que envolve os interesses de grandes empresas e cifras de trilhões, numa chamada bolha especulativa. Na linguagem econômica créditos apresentados como bons que na verdade não tem liquidez. Em outras palavras são cifras milionárias em créditos não têm valor, o que resulta em pura mágica do mercado financeiro – no final todos os americanos pagarão a conta. Como ninguém quer ficar com prejuízos todos correm se salvar – o que não ocorre com os contribuintes. Um salve-se quer puder de um grupo que sempre foi privilegiado pelo Estado liberal.

A revista Veja, encarnando o discurso do liberalismo teve mais trabalho diante dos caos e da realidade incontestável. Destampou em sua capa uma imagem emblemática. Tio Sam aparece com o dedo apontado para o leitor – neste contexto para milhares de brasileiros – dizendo “Eu Salvei Você!”, como subtítulo: “O governo americano evita o colapso financeiro mundial e nunca mais Wall Street será a mesma”. Talvez devesse dizer: o liberalismo, depois do último colapso deverá sofrer mudanças. De fato, o Estado deverá tomar o seu lugar, ou seja, o regulador da economia sem regras, e, evidentemente, se preocupar com o bem-estar-social, pois a doença que atinge bancos é diferente daquela que deixa enferma milhares de pessoas que vivem na miséria – não somente de alimentos, mas de informação, conhecimento e educação. Contudo, fica uma lição, o mercado muito concentrador certamente não tem condições de se responsabilizar pela vida em sociedade.

Ressalta aos olhos a dificuldades de alguns meios de comunicação de massa ao perceber a realidade não fazem jus a sua função, que é a de informar com isenção. Maquiar informações talvez não seja uma boa saída para uma sociedade que se informa por outros meios. A notícia tem mais rapidez que nos tempos de Gutemberg – o inventor da prensa no século XV -, com os adventos tecnológicos. Apesar do monopólio para o comércio global, a comunicação em rede também abre caminho para fluxo de trocas de informação.

Contudo, vale uma ressalva, a questão da enfermidade ainda não está resolvida, ainda será necessário muito medicamento para tratar a doença. Embora lentamente pode chegar a outros lugares. Afinal, estamos numa aldeia global.

JORNALISMO E JUSTIÇA

A chamada grande mídia tem capacidade financeira para arcar com as prováveis e pesadas multas, o que define e elege a ordem econômica como base da liberdade de expressão. Portanto, Meios de Comunicação que mantém sua capacidade de agendamento dos fatos e o estabelecimento da percepção dos espaços sociais, antes e durante o pleito eleitoral.

A sociedade a cada dia vive a reboque do poder judiciário, que define as regras no espaço público, muitas vezes sem considerar o espaço vivido social. Não se pode esquecer que a ordem do sistema deve estar numa relação direta com os interesses da maioria, conforme equilíbrio que permita a liberdade de escolhas dos indivíduos. As eleições que passaram pelo crivo dos coronéis e os votos de cabresto, podem estar sendo definidas a partir de um centro que talvez desconheça as características peculiares das relações humanas. A decisão para o voto deve ser do eleitor bem informado, caso contrário, se estabelece a eleição de quem tem mais visibilidade, obtida fora do período eleitoral, por conta da capacidade financeira ou relações políticas. Neste sentido, nos pequenos municípios brasileiros o excesso de restrição da justiça intimida os meios de comunicação a exercer sua prática: a informação. O resultado é um leitor mal informado e a dificuldade de surgirem novas lideranças políticas. Um mundo que gira sem sair do lugar.

A chamada grande mídia tem capacidade financeira para arcar com as prováveis e pesadas multas, o que define e elege a ordem econômica como base da liberdade de expressão. Portanto, Meios de Comunicação que mantém sua capacidade de agendamento dos fatos e o estabelecimento da percepção dos espaços sociais, antes e durante o pleito eleitoral. Afinal, o que não é divulgado não é público. Desta maneira, quem se apresenta como candidato a um pleito deve se mostrar à sociedade, com liberdade, desde que não infrinja contra o bem público. Logo, deverá estar aberto ao crivo da crítica e ser questionado pelos mediadores sociais – ao contrário de cooptar líderes de opinião -, maneira pela qual será conhecido por suas propostas e enquanto autoridade capaz de exercer um cargo representativo. Infelizmente o Brasil continua sendo pensado e organizado a partir de determinados grupos de líderes institucionais, o que torna o homem social, em um sistema fechado, apenas participante de uma massa, avaliado como um ser, por natureza, incompetente para definir as suas próprias escolhas.

Sem dúvida, em muitos momentos as mídias locais preferem se ausentar da responsabilidade pela informação, com cuidado excessivo, temendo as pesadas multas. Entretanto, torna-se importante a sua participação no espaço que lhe é conferido pelo público, qual seja, a de informar os fatos ocorridos na sociedade, inclusive, no caso de período eleitoral, que diz respeito à vida pregressa, relacionamentos partidários e projetos apresentados pelos candidatos. Evidentemente, tendo como base a ética e isonomia entre os pleiteadores de cargos públicos.

Todavia, o entendimento de uma visão funcionalista continua na ordem do dia. Ou seja, a melhoria da sociedade passa pelas lideranças pensantes e capazes, as quais devem ser seguidas pelo homem ainda alienado, incapaz de decidir por suas escolhas. Sendo assim pessoas iluminadas devem zelar pelo excesso de estímulos que pode contaminar o seu parco conhecimento do homem-massa, caso contrário, o resultado será uma sociedade pouco funcional e ludibriada por espertalhões que usam da inocência alheia para atingir os seus interesses particulares. Não se pode esquecer que o excesso de ordem pode levar a desordem ou mesmo à disfunção. Cabe destacar que mudanças de paradigmas, ao longo do tempo, existem, o que, de fato, é importante no equilíbrio social, causando rupturas nos modelos autoritários. Exemplos não faltam.

Finalmente, a rigor, não existe outra forma de sociedade democrática sem a participação popular – neste ínterim estão os mediadores sociais no que se refere à comunicação - que resulta em decisões e escolhas com liberdade, considerando, sobretudo, que a sociedade está sempre em transformação, pois a comunicação é permanente.

PÓS-MODERNIDADE SEM JORNALISTAS

A comunicação midiatizada longe de ser uma preocupação de muitos, se faz sumariamente o meio para a ordem ou instabilidade, equilíbrio ou desequilíbrio de uma estrutura. A rigor, o agendamento social passa pelas informações pautadas, apuradas, produzidas e veiculadas por jornalistas.

A discussão sobre o fim do diploma para jornalistas novamente vem à tona em debate público que se arrasta por décadas, sem muita visibilidade, embora diga respeito a uma categoria e a toda sociedade. A comunicação midiática, afinal, perpassa toda sociedade que depende dela para seu equilíbrio e funcionamento. A grande questão é exatamente entender a importância e o que representa a sua desestabilização, considerando que há interesses os mais diversos no fim da obrigatoriedade do diploma para profissionais que se dedicam as notícias da cotidianidade, estrutura basilar para manutenção da ordem em um sistema de instabilidades. A grande questão é saber se por trás do tema agendado está realmente o desejo pela liberdade de expressão, impedida pela exigência do diploma, como advogam alguns juristas e empresários; interesses econômicos das empresas de comunicação pelo aumento do número de pessoas disponível para o trabalho; ou realmente a preocupação está na manutenção da estrutura do sistema social capitalista, que freqüentemente passa por crises.

Mesmo considerando que o diploma não seja uma exigência de todas as nações mundiais ditas democráticas, não se pode confundir a realidade brasileira com as demais, sob pena de errar nas análises, pois, há peculiaridades aqui que não se acham acolá. A história brasileira deve ser observada inclusive pela sua colonização que macula muitos espaços importantes da sociedade moderna, a começar pela corrupção política, as leis que se originaram pelos interesses coloniais, dentro da ordem política e econômica. O jornalismo tem suas raízes, no Brasil, neste imbricado meio, não de maneira passiva como se imagina, mas muito ao contrário. Transformou-se ao longo do governo monárquico como ponta de lança das mudanças sociais que culminaram com o fim do absolutismo e começo do governo republicano. Importante destacar que nesta época nem se pensava em diploma, nem os incipientes jornais lembram a imprensa que conhecemos. Evidentemente que são tempos de uma sociedade em que se discutia a situação de milhares de pessoas sem escolas boas ou ruins. Os chamados jornais pasquins – tratados de maneira pejorativa e pouco conhecidos pela historiografia - serviram ao propósito: apoiar necessárias mudanças da ordem estabelecida em meio às grandes diferenças sociais que, vergonhosamente, persistem no País.

Nesta mesma análise o jornalismo passa a ter importância efetiva, a começar nos Estados Unidos, exatamente com as crises sociais causadas pelas guerras mundiais atingindo a instabilidade das lideranças nacionais. A comunicação passa a ser a preocupação das autoridades econômicas e políticas no sentido de buscar o equilíbrio e estabilidade social, daí as primeiras pesquisas, na década de 30, sobre os meios de comunicação e sua atuação na formação do consciente coletivo, a então, denominada, de maneira equivocada, sociedade de massa. A comunicação midiatizada longe de ser uma preocupação de muitos, se faz sumariamente o meio para a ordem ou instabilidade, equilíbrio ou desequilíbrio de uma estrutura. A rigor, o agendamento social passa pelas informações pautadas, apuradas, produzidas e veiculadas por jornalistas. Os quais são responsáveis pela angulação das notícias publicadas, que no mundo do jornalismo os pensadores chamam de Gatekeeper. Isto é, o jornalista tem papel sumário na definição do que será publicado pelo meio de comunicação – uma espécie de filtro -, embora a linha editorial do veículo seja definida pela direção da empresa conforme suas relações comerciais e ideológicas.

Sem entrar nos termos técnicos, o fato é que o diploma no Brasil, seja ele para que área for, deve ser pensado pela sua capacidade de expressar o seu papel, qual seja, permitir que pessoas qualificadas exerçam sua função que resulta em reflexos para toda a sociedade. Neste ínterim está o campo jurídico, com pessoas preocupadas com a ordem, a justiça. Para tanto, o profissional deve passar pelo crivo de uma rigorosa seleção, para obter a tradicional Carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). São operadores do direito selecionados por uma organização que representa uma classe, como conseqüência os interesses sociais. Neste sentido, os brasileiros além de exigirem jornalistas diplomados deveriam pensar na qualidade da formação destes profissionais. Pois, a democracia - ainda mais neste mundo globalizado - passa pela comunicação midiática, que deverá se relacionar com ética, honestidade, com o claro propósito de permitir ao homem sistêmico conhecer os seus diferentes espaços. Impossível na atualidade o indivíduo sobreviver sem as informações advindas dos meios de comunicação. Os tradicionais líderes de opinião responsáveis pela defesa de grupos sociais, hoje, dependem do agendamento midiático para definirem caminhos, principalmente nas comunidades ainda distantes dos modernos aparatos comuncacionais.

As empresas de comunicação, apesar dos investimentos tecnológicos, não reúnem condições efetivas de formar profissionais competentes, numa visão ética, com capacidade reflexiva e percepção apurada de um mundo complexo em que sobressaem os enfrentamentos simbólicos. A academia ainda é o lugar para formar pessoas com vigor reflexivo e com conhecimento transformador, que emergem das teorias e práticas, que, de fato, são indissociáveis. O resultado na prática eficiente do jornalismo, cabe ainda lembrar, depende da formação de pensamento crítico, inovador e responsável. Indubitavelmente, para tanto, têm papel importante as universidades e faculdades com professores competentes, em que a pesquisa seja um dos pilares destas instituições, responsáveis, sobremaneira, pela existência de profissionais competentes e vitais para a sociedade, inclusive para as empresas de comunicação de massa. Caso contrário, que se acabe com todos os diplomas, inclusive de advogados, médicos e engenheiros.

A VOLTA DO ESTADO

A globalização, no contexto, o da economia global com resultados de crescimento equânime, não passou mesmo, em grande parte, de discurso, pois, as barreiras limítrofes abertas para o mercado estiveram fechadas para a sociedade que continua sofrendo com a discriminação pelos países centrais, que resguardam seus interesses comerciais e expõem preconceitos contra nações inteiras, tratadas pelo eufemismo de emergentes.

Como ocorreu nos anos 90, o Estado voltou a ser discutido na imprensa, na academia e pelos economistas, entretanto, sem a ênfase dada naquela época. Em voga estava o fim ou não do Estado. Várias correntes eram contrárias a abertura das fronteiras entre as nações para o livre domínio de mercado, que passaria a regulador da sociedade. Na outra linha, os chamados neoliberais, defendiam o funcionamento da economia com pleno vapor sem fronteiras que permitisse um mundo desenvolvido, com uma sociedade à mercê das regras estabelecidas pelos bancos centrais mundiais.

Para dar início a essa aventura foi realizada, no início daquela década, uma reunião em Washington nos Estados Unidos – o chamado consenso de Washington - para se decidir as novas metas para a economia globalizada. Um verdadeiro embate de idéias envolvendo a opinião pública, intelectuais e autoridades políticas. Chegou-se a ventilar, com grande repercussão, o fim do Estado.

Com a quebradeira na economia estadunidense, com reflexo na Europa, passadas quase duas décadas, finalmente chegou-se ao consenso de que cada nação deveria regular suas fronteiras e principalmente ser responsável por suas economias que têm características peculiares. A globalização não poderia formar uma sociedade homogênea, simplesmente, afinal, a regras estabelecidas não diziam respeito aos interesses de países pobres, na periferia do sistema global. Um mundo sem fronteiras, com crescimento atrelado entre nações, numa clara referência ao sistema integrado, não condizia inteiramente com a realidade cultural e social, como se pode perceber atualmente, com a crise econômica envolvendo os mercados centrais. Pois, sem dúvida, o princípio da globalização se baseia na centralização de poder – seja econômico, político ou militar -, numa clara estratégia de avanço dos Estados centrais com bloco formado pelos Estados Unidos, alguns países da Europa e Japão. Nos dias atuais, ao contrário de uma economia sem Estado, aparecem na lista de globalizados a China e a Índia.

O que ressalta nos tempos atuais é a falta de percepção do importante papel do Estado como ordenador, voltado para o bem-estar social, que foi contestado pela grande mídia e por inúmeros intelectuais brasileiros no passado e ainda hoje. Se, de fato, as nações, principalmente os países periféricos, tivessem seguindo as propostas liberalizantes apregoadas, certamente conviveríamos com mais concentração econômica para uma inconseqüente desterritorialização social e cultural imensurável, com graves reflexos no mundo. O que se percebeu de algum modo foi a materialidade de outro caminho, sobremaneira na América Latina, com governos eleitos que deveriam se posicionar em favor de um Estado regulador, com construção de fronteiras para a defesa dos interesses locais. Logo, torna-se forçoso afirmar que um sistema não funciona sem a participação efetiva dos diferentes ambientes sociais, apesar da força do discurso externo, universalizante.

A globalização, no contexto, o da economia global com resultados de crescimento equânime, não passou mesmo, em grande parte, de discurso, pois, as barreiras limítrofes abertas para o mercado estiveram fechadas para a sociedade que continua sofrendo com a discriminação pelos países centrais, que resguardam seus interesses comerciais e expõem preconceitos contra nações inteiras, tratadas pelo eufemismo de emergentes. Casos de xenofobia aparecem com freqüências nas páginas dos jornais, com aparente crise entre centro e periferia. No que se refere à tecnologia continuamos a importar, principalmente, da comunicação, sem reunir (estrategicamente) as condições devidas de produção localmente. Os meios de comunicação de um modo geral refletem informações obtidas pelas grandes agências noticiosas com direcionamente a repercussões que agendam os assuntos tratados pela opinião pública a cada dia.


Paradoxalmente, entretanto, as novas tecnologias oferecem condições para um mundo mais informado e com desenvolvimento econômico que atenda a exigência do homem moderno, que no seu cotidiano, convive com mais qualidade de vida, principalmente devido aos avanços da ciência no campo da medicina; maior difusão de conhecimento e aumento da produção de alimentos, apesar de insuficientes, em conseqüência do aumento do número de pessoas que passam a se alimentar, na periferia, embora ainda milhares permanecem excluídos.


Finalmente, o capitalismo – essencialmente globalizante - não vive os melhores de seus dias, passa por enfermidade que vai levar tempo para se curar, o que trará reflexos para todos. A dúvida é o que virá depois. Os Estados, fundamentalmente, ganham destaque nessa ordem sistêmica global, apesar da construção de senso comum sobre um mundo sem fronteiras.

COMO EXPLICAR A VIOLÊNCIA

Sobra estranhamento a quantidade de discussão em torno da violência definindo-a como simplesmente uma questão de educação, religiosidade, moralismo, enquanto que os índices sígnicos não deixam dúvidas quanto a sua origem.

Comum imaginar que a violência seja o resultado da barbárie humana, ou seja, a falta de civilidade do homem que atravessa os tempos sem atingir o grau intelectual desejado. Entretanto, as revoltas humanas modernas podem estar relacionadas com as lutas travadas na construção do espaço social. Seria estranho imaginar que em uma grande cidade não aparecessem os problemas peculiares como o trânsito caótico, a falta de estrutura para uma população cada vez mais volumosa, a falta de educação para todos com qualidade, os crimes cada mais freqüentes, etc. À medida que se têm avanços surgem, por sua vez, os reflexos das mudanças no meio ambiente em que as pessoas vivem. Notoriamente, o sistema não é justo como se faz mostrar, ao contrário, há neste contexto diferentes espaços de enfrentamentos que se estabelecem pela necessidade de se definir o lugar de ordenação. Dito de outra forma, os enfrentamentos são o reflexo da ordenação deste sistema. A violência pode estar nesta frágil relação de poder.

A cultura, na verdade, apresenta-se complexa em virtude de se formar a base para contestações e percepção da realidade, longe de querer evidenciar aqui que o letrado tem mais conhecimento que o não escolarizado. Afinal, a formação da sociedade passa pelo conhecimento das relações dos espaços sociais. Desta maneira, é possível perceber na política as contradições que se explicam dentro deste campo de enfrentamentos. O atual presidente brasileiro foi eleito pela classe menos abastada deste país que contava – e, certamente, ainda conta – com um governo que atendesse os seus interesses, de pessoas distantes do centro de poder - seja político, social e econômico. Entretanto, o governo de esquerda tendeu ao centro em decorrência de estrutura formada, que tem suas prioridades estabelecidas conforme organização prevista.

As pérolas dos políticos neste ínterim são inevitáveis, como foi o caso de Fernando Henrique Cardoso ao afirmar para a imprensa a emblemática frase “esqueçam o que eu escrevi”, quando os jornalistas apontavam incoerência entre suas atitudes políticas e os textos acadêmicos publicados em livro. Ou mesmo de Luís Inácio Lula da Silva que era vociferante contra a dívida externa brasileira no período em que militava no sindicalismo. Entretanto, na sua gestão , o país cumpriu rigorosamente o compromisso de pagamento ao Fundo Monetário Internacional.

Recentemente, os embates na Argentina deixam claras as diferenças sociais entre agricultores e a família Kirchner. Exatamente, o vice, quem deveria zelar pelos interesses de cúpula partidária, definiu a derrota dos companheiros em nome de grandes exportadores de produtores agrícolas, que venceu – dentro das regras estabelecidas - a batalha contra o poder político, tido como de esquerda.

Mas onde entra a violência nesta discussão? Grande parte da sociedade, embora desmobilizada no que se refere a solidificação de regras para condução da sociedade entra no campo de luta, demonstrando as diferenças e a não aceitação. Isto resulta em dizer que a pobreza não leva à violência, de fato, entretanto, resulta da concentração exagerada, que no final torna a sobrevivência em sociedade impossível, dentro do estabelecido, apenas racionalmente. Como exemplo, os mais notórios casos midiáticos de corrupção que assalta o país a cada dia em bilhões, sendo que, paradoxalmente, os agentes condenados recebem premiação posterior em circunstancia de uma aposentadoria vitalícia de plena fartura. Ao contrário da maioria, que se vê diante de regras cada vez mais rígidas que devem ser cumpridas conforme o rigor da lei.

Sobra estranhamento a quantidade de discussão em torno da violência definindo-a como simplesmente uma questão de educação, religiosidade, moralismo, enquanto que os índices sígnicos não deixam dúvidas quanto a sua origem. A concentração de riqueza regional, nacional e global torna a sociedade moderna sem saída. Talvez a solução esteja exatamente na comunicação, embora se fale muito, mas falta o mais importante: diálogo. O qual somente se efetivará caso o controle esteja na relação recíproca da fala, na alteridade.


DESINFORMAÇÃO SIMBÓLICA

Não há dúvida que vivemos em mudanças sociais, que advém dos novos, em meio às tecnologias da informação, entretanto, torna-se importante analisar quais os filtros por que passam tais notícias, principalmente as de agências internacionais, passivamente copiadas pelos jornais brasileiros.

Com as novas tecnologias da comunicação o mundo realmente entrou na esfera da aldeia global, conforme percebido pelo canadense Marshall Mcluhan, entretanto, um ponto precisa ser avaliado. Será que as informações ficaram mais seguras nesta chamada pós-modernidade? Possível, analisar os movimentos sociais a partir do que é veiculado pela mídia, inclusive o que se lê na internet? Antes de qualquer resposta é preciso fazer algumas avaliações dos fatos noticiados. Afinal, os meios de comunicação assumem papel sumário na condução do pensamento social neste tempo globalização. De fato, a discussão é complexa.

Nos últimos dias, a agenda estabelecida pela mídia, a rigor, se resume, a escassez de alimentos e a inflação que ronda o mundo, inclusive o Brasil, de triste lembrança. Na semana, surge o caso libertação de Ingrid Betancourt pelo governo de Álvaro Uribe, da Colômbia, resultado de uma guerra, que perdura, contra as Farc (Forças Armadas Revolucionárias Colômbia). A pergunta que persiste é até onde as informações tratadas têm o crivo de interesses maiores, econômicos e políticos.

No que se refere à informação sobre escassez de alimentos ressalta aos olhos saber que a inflação ressurge no grande desenvolvimento econômico Chinês, instabilidade financeira nos Estados Unidos, mudanças políticas na América Latina, com eleições de governos não alinhados os países centrais com lideranças dos Estadunidenses. Se na década de 1990 tentou-se um acordo que fracassou, o chamado consenso de Washington, em função dos interesses econômicos das nações periféricas não contempladas, a globalização caminha para ser da ordem simbólica, ou seja, muita informação, mas pouco confiáveis em função de uma comunicação mediada a partir de um centro centralizador. Não há dúvida que vivemos em mudanças sociais, que advém dos novos, em meio às tecnologias da informação, entretanto, torna-se importante analisar quais os filtros por que passam tais notícias, principalmente as de agências internacionais, passivamente copiadas pelos jornais brasileiros.

Estanho imaginar que a escassez de alimentos se dá, conforme matérias publicadas, pelo acesso, nos últimos anos, a alimentação por parte de grande número de pessoas dos países pobres. Se antes não comiam adequadamente passaram a ter condições a algumas refeições diárias. No mínimo é estranha esta análise, pois, confirma a existência de uma situação degradante, um mundo entre famintos que se comem passam a gerar quebradeiras econômicas. Talvez a questão esteja na necessidade de especulação e aumento, no sentido de até mesmo dar coesão a um sistema monetário ordenador.

Mas o que chama a atenção, conforme noticiado pelo Jornal Folha de S. Paulo na quinta-feira (03), é a grande coincidência entre a libertação da presa política colombiana Ingrid Betancourt e a presença no país colombiano do candidato John McCain, candidato a presidência da república dos Estados Unidos. Ou seja, mesmo antes de da ação militar ocorrer, o candidato republicano, coincidentemente viajou para o país latino americano, nação que recebe ajuda dos Estados Unidos contra a guerra contras as Farc.

A propósito, não se trata de avaliar a guerra em si,, que sempre esteve presente pelo mundo, mas tão-somente entender, o espaço simbólico que, possivelmente, como está delimitado, respalda as ações políticas e econômicas, mesmo considerando, muitas delas, injustas.